Por Lia Amorelli
No nosso “Café no Barracão” de hoje, tivemos a confirmação de uma pauta que é a nossa cara! A Mocidade Unida do Santa Marta acaba de lançar seu enredo para o Carnaval 2026, e quando eu vi, pensei logo: “Samba é Minha Cachaça” é um enredo que fala a língua do sambista. Com uma pegada divertida e irreverente, a escola da Zona Sul celebra uma das paixões nacionais e promete um desfile que vai ser a alma do botequim na Intendente Magalhães.
A carnavalesca Carila Matzenbacher e o enredista Patrick Felipe criaram uma sinopse que me encantou. A logo, assinada por Rodrigo Cardoso, completa uma trilogia sobre a celebração da vida. Mas, como eu comentei durante a live, esse enredo vai muito além da festa.

A Cachaça: Símbolo de História e Resistência
A sinopse não romantiza a história, mas resgata a trajetória da bebida desde o canavial e sua chegada com os portugueses, passando pela conexão com a escravidão e a dor dos alambiques. Para mim, a parte mais forte é quando a cachaça é apresentada como “alimento da senzala” e como a bebida que “fermenta as revoltas da nação”. É uma abordagem sensível que mostra como a alegria do samba nasce também de uma história de luta e resistência.
Outro ponto que eu achei muito forte é o contraste entre o sagrado e o profano. A sinopse trata a cachaça como uma entidade a ser reverenciada, com menções a “Nossa Senhora da Boa Pinga” e “Santinha da Aguardente”. E o gesto de derramar o primeiro gole no chão é um ritual de respeito popular. Isso mostra a visão poética e profunda do enredo.
Um Enredo com a Cara do Povo
O que mais me cativou nesse enredo é a sua capacidade de falar a nossa língua. O texto é cheio de expressões cotidianas que a gente usa no dia a dia: “remédio nunca vire veneno”, “desça pra barriga, não suba pra cabeça”. A escola entende a cultura da rua e a responsabilidade que existe por trás da festa.
Quando eu li que a cachaça “molha as palavras do poeta”, logo me veio à mente a imagem dos nossos compositores, reunidos no barzinho ou em casa, tomando a branquinha e criando sambas. O enredo sugere que a cachaça é o combustível da inspiração para os compositores e a alegria que faz o corpo requebrar no samba. A Mocidade Unida do Santa Marta, que já vinha fazendo desfiles irreverentes e cheios de vida, acerta em cheio ao trazer um tema que se identifica de cara com o sambista, do bar ao botequim.
É um enredo gostoso de ler, cheio de poesia e com uma identidade forte, que prova que o samba pode ser ao mesmo tempo divertido e ter profundidade histórica.
Os meus pontos de observação em relação ao enredo e o que eu espero deste desfile:
Esse enredo da Mocidade Unida do Santa Marta é a prova de que a escola tem uma visão muito clara para a Série Prata. Com um tema tão popular e cheio de irreverência, o que podemos esperar é um desfile vibrante, alegre e com um visual que promete ser muito divertido.
A carnavalesca tem em mãos um material riquíssimo para criar fantasias e alegorias que vão da história da cachaça à irreverência do botequim, passando pelo lado místico e religioso. Acredito que a identidade visual será um dos pontos fortes, capaz de levar o público da Intendente Magalhães a se sentir dentro de um grande bar, celebrando a nossa cultura.
O tema é popular, mas a escola deve fugir do “mais do mesmo”. O grande desafio é aprofundar as camadas históricas e culturais que a sinopse já sugere, sem cair na caricatura.
O samba-enredo será crucial. Ele precisará ter a irreverência do tema, mas também a força melódica e a poesia necessárias para carregar a história da cachaça-resistência na avenida. Um samba com boa letra e melodia marcante fará toda a diferença.
A escola já demonstrou que entende seu público. Agora, a tarefa é manter essa sintonia na avenida, entregando um desfile que seja gostoso de ver, fácil de entender e, acima de tudo, emocionante.
Se a Mocidade Unida do Santa Marta conseguir equilibrar a irreverência e a alegria com a profundidade histórica do enredo, teremos um dos desfiles mais cativantes da Série Prata. Ficarei de olho!
